CEBs E OS DESAFIOS DE UM BRASIL SEM RUMO

Marcelo Barros

Quando, em janeiro de 2018, o 14º Intereclesial das Cebs acontecer e abordar os desafios da Igreja no mundo urbano, já teremos vivido mais de um ano do golpe parlamentar que derrubou um governo fragilizado e problemático, mas legitimamente eleito para administrar o país até 2018. O próprio presidente ilegítimo que tomou o poder confessou claramente que a razão do golpe foi impor ao país o programa neoliberal e privatizador que a classe mais alta dos empresários e as multinacionais estrangeiras querem para o Brasil. De fato, em poucos meses desse governo, o povo já sofreu várias derrotas e viu serem abolidos vários programas sociais e direitos adquiridos pela maioria mais pobre da população. De fato, conforme os estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o topo da pirâmide social brasileira agora é composto por 71 mil super-milionários. Isso significa 0, 05% da população do país, uma desigualdade social das maiores do mundo.

As recentes eleições municipais mostraram uma grande vitória desses ricos (em várias regiões do país, muitos deles foram eleitos prefeitos de cidades importantes) e dos segmentos religiosos neopentecostais conservadores. Mesmo os que não foram diretamente eleitos, estão por trás de prefeitos eleitos com o seu poder econômico. Além disso, uma grande massa de pobres é levada a   votar nesse projeto que lhes é contrário. Como uma barata que escolhe se proteger debaixo do chinelo que vai esmagá-la.

Diante de tal realidade, muita gente tem a tentação de pensar que não tem jeito. Não se vê saída ou luz no fim do túnel. O trem parece descer um despenhadeiro sem freio ou sem rumo definido. É nesse contexto que estamos preparando o 14º   Intereclesial das Cebs. O fato de ser em Londrina, uma cidade grande do sul país, também marcará esse encontro sobre a realidade urbana e seus desafios. As CEBs, formadas principalmente por pessoas de base, a maioria gente muito pobre e lutadora, têm uma vocação profética própria.  Querem ser, como Jesus disse no evangelho, fermento na massa. Assim, revelam um rosto de uma Igreja em saída, para fora dos seus aspectos institucionais e inserida na realidade social e política para iluminar na sociedade uma espiritualidade ecumênica e laical, transformadora da realidade desse mundo. E aí vale a pena recordar que, na Bíblia e na história da fé, a profecia sempre surge e se desenvolve em contextos sociais difíceis e opressivos. Antigamente, a profecia se fazia de forma espontânea e imediata. Hoje, em um mundo mais complexo e pluralista, a profecia tem de ser expressa em termos que pedem estudo e preparação. As pessoas que têm essa vocação de animar as CEBs devem retomar quanto antes os estudos bíblicos – A Bíblia lida a partir da realidade – precisam se engajar nas escolas de Fé e Política para não serem ingênuas e saberem responder aos desafios dos novos tempos.

E, tanto no nosso modo de ser pessoal, como no jeito de conviver e trabalhar, somos chamados a viver uma espiritualidade profunda e que nos alimente nessa esperança ativa e apressada de um mundo novo possível. Dom Helder Câmara, quando era arcebispo do Recife, gostava de dizer: “Quanto mais escura for a noite, mais luminosa será a madrugada e o amanhecer”.

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