Festa da Transfiguração do Senhor

 A tentação de permanecer na “montanha” é grande, mas devemos descer à “planície” para “transfigurar” os ambientes em que vivemos, respaldados pela prática de Jesus, o “transfigurado”, que sendo Filho de Deus, fez-se um de nós para nos divinizar. Que tenhamos essa coragem!

Nas fontes cristãs pode-se ler uma cena que, tradicionalmente, veio a se chamar de “Transfiguração de Jesus”. Não é possível identificar a raiz histórica desta experiência, mas estamos diante de uma profunda e apurada cristologia pós-pascal que animou os primeiros cristãos a crerem somente em Jesus.
A cena situa-se poeticamente numa alta montanha e Jesus está acompanhado de dois personagens lendários na história judaica: Moisés, representante da Lei, e Elias, o profeta querido da Galiléia. Jesus aparece com o rosto transfigurado, quando do interior de uma nuvem se escuta uma voz que diz: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”. Tal declaração assustou os discípulos Pedro, Tiago e João que caíram com o rosto em terra.

A cena, recheada de diversos recursos simbólicos, é grandiosa! Jesus se lhes apresenta “revestido” da glória do próprio Deus. Tudo convida a intuir a condição divina de Jesus, naquele que foi crucificado e desfigurado pelos seus adversários, porém ressuscitado por Deus… muito difícil vislumbrar no crucificado, o ressuscitado!!!!
A reação de Pedro seria a nossa: Senhor, vamos ficar por aqui! Que maravilha! Armaremos uma tenda para Ti, outra para Moisés e outra para Elias… A espontaneidade de Pedro, sua simplicidade ingênua de querer permanecer ali, “na montanha”, mostra que ele não havia entendido nada… Por um lado ele coloca Moisés e Elias no mesmo plano de Jesus; por outro, “permanecer na montanha” – símbolo do lugar onde se adora Deus em Espírito e verdade – significa resistir e fugir da dureza da “planície”, do lugar de confrontos, de lutas, de mudanças. Significa “fugir” da Cruz, da paixão, do sofrimento e da morte! Eis a nossa tentação diária…

Não podemos confundir Jesus com ninguém. “Este é o meu Filho… escutai-o!”
Nós também somos tentados todos os dias a “armar tendas” numa atmosfera agradável e cativante, longe dos nossos problemas, da tenebrosa realidade que assola o nosso Brasil, e, de preferência, respaldados pela nossa religiosidade e espiritualidade piegas de rezar para que Deus ajude a melhorar a nossa situação; até ajudamos os pobres com alguns alimentos, remédios, roupas que não queremos mais, enfim, “faço o que posso…”, mas recolhido na “minha tenda”, sempre com Jesus por perto e os meus santos de devoção… Nada mais farisaico e hipócrita!

Se escutarmos Jesus, sentir-nos-emos convidados a sair do nosso comodismo, do nosso conformismo, cortando com o estilo de vida egoísta em que vivemos para começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega dos mais pobres e injustiçados da nossa sociedade. É muito difícil. A tentação de permanecer na “montanha” é grande, mas devemos descer à “planície” para “transfigurar” os ambientes em que vivemos, respaldados pela prática de Jesus, o “transfigurado”, que sendo Filho de Deus, fez-se um de nós para nos divinizar. Que tenhamos essa coragem!

Que saibamos ouvir os apelos que o momento atual nos faz. Que tenhamos sensibilidade para ouvir os gritos da injustiça e da impunidade que ecoam aos nossos ouvidos já tão acostumados com esta sonoridade absurda e sofrida. Que tenhamos força para transfigurar o rosto do Brasil desfigurado aos olhos do mundo, apresentando seu verdadeiro rosto: o rosto de um povo bom, hospitaleiro, alegre, amável, trabalhador e ético.

Quininha Fernandes

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