Jesus Cristo: um desconhecido

Por Celso Pinto Carias*

Mais uma vez se abre uma POLÊMICA religiosa. Mais uma vez se trata de uma polêmica sem sentido, superficial, desviante, pois o foco não é propriamente a questão religiosa, a possível defesa de um ser divino que não precisa de defesa. DEUS NÃO PRECISA DE ADVOGADO. Costumo dizer para os meus alunos e alunas que a religião, qualquer religião, a sua e a minha, pode ser utilizada para um projeto de poder dominador. E uma razão de fundo é a uma fé que se pensa apenas como “toma lá dá cá” e não uma fé que configura o sentido fundamental da vida. Uma fé que não se constitui como um projeto de vida, seja qual for a situação da sua vida. Por isso, também costumo dizer que Jesus Cristo é um ilustre desconhecido, pois não assumem o Seu projeto de vida.

Aí, uma escola de Samba, Mangueira, 2020, faz uma samba no qual Jesus Cristo é a figura central, que diz de forma artística o que boa parte da teologia cristã disse no passado e continua a dizer hoje, e chamam isso de blasfêmia. Determinantemente: não conhecem Jesus Cristo.

“Ele tinha condição divina,… Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo” (Fl 2,6a-7a). É dogma da fé cristã, FÉ CRISTÃ, ou seja, não apenas católica, protestante, ortodoxa, anglicana, que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano (Concílio de Calcedônea, 451). Ou seja, Nele encontramos resposta para duas perguntas fundamentais: quem é Deus e quem é ser humano. Ser cristão e cristã é estar disposto a fazer o mesmo CAMINHO HUMANO DE JESUS CRISTO: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Assim sendo, os Evangelhos nos dão o itinerário do Caminho. “Ele que passou fazendo o bem” (At 10,38). Ele fez milagres? Sim, milagres de cura como sinal do grande bem que é a vida humana. Não deve ter curado 1% dos doentes de Jerusalém. Procure, se você tem o Novo Testamento, se Jesus marca dia, hora ou local para fazer milagres. Ele não foi um milagreiro, mas a aproximação de Deus até o extremo da humanidade para dizer para nós: “Dei-vos o exemplo para que, como eu voz fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). Ou seja, a missão central de Jesus Cristo foi a de apresentar o Projeto do Reino de Deus que se consuma na ressurreição final, mas que começa aqui e agora. Projeto de paz, justiça, fraternidade, solidariedade e perdão.

Portanto, em vez de ficarmos tentando ser FISCAIS de Jesus Cristo, façamos o que Ele fez. O critério fundamental de adesão a ele está em Mateus 25: tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, estava nu e me vestistes, era peregrino e me acolhestes. Aprendamos com as “Bem aventuranças”: “Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem,…” (Lc 6,20-23). Aprendamos a misericórdia com Ele: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). E aprendamos com todos e todas que fizeram de suas vidas o que Jesus de Nazaré fez com a dele: Oscar Romero (hoje santo católico), Martin Luther King (pastor batista norte-americano), Madre Tereza de Calcutá (também santa católica), entre tantos e tantas.

Por favor, voltemos ao que é fundamental. Não deixemos que o cristianismo seja tão desfigurado. E viva a Mangueira, parabéns ao Carnavalesco Leandro Vieira pela sensibilidade carinhosa com o Caminho de Jesus Cristo.

*Celso Carias é Doutor em Teologia pela Puc-Rio, Autor do livro “Teologia para Todos”, Editora Vozes.

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