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Reflexões da Palavra | 16º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Leituras: Jr 23,1-6 – Sl 22 – Ef 2,13-18 – Mc 6,30-34

Por Quininha Fernandes Pinto, do Regional Leste 1.

No domingo passado, a liturgia nos mostrou o envio dos Doze e algumas orientações precisas para o desenvolvimento da missão. Percebemos que à pergunta que Marcos desenvolve no seu Evangelho: “Quem é Jesus?” – obtemos a resposta de que Jesus é o verdadeiro pastor prometido. A imagem do pastor é muito conhecida na Bíblia. O profeta Jeremias – na 1a leitura – alerta, com dureza, os pastores que deixam-se perder e dispersam-se do rebanho, repreendendo e prometendo severos castigos. Anuncia também a vinda de novos pastores, e um descendente de David que fará valer a justiça e a retidão sobre a terra. E o povo viverá tranquilo.

Entre a promessa do Antigo Testamento e a sua realização em Jesus no Novo Testamento, há uma realidade contrastante. Os chefes antigos oprimiam o povo; Jesus e seus discípulos se dedicam a conscientizá-lo e libertá-lo, de tal modo que não tinham tempo nem para comer… O povo está separado dos chefes; Jesus – o chefe/pastor – quer unir o rebanho, como povo, em virtude de um poder diferente: um poder que não domina, não oprime, mas coloca-se a serviço, serve! “… quem quiser ser o primeiro, faça-se o último!”. Com palavras assim, os evangelhos cristãos declaram que os pastores da Igreja – e, consequentemente, os chefes do povo – orientam para uma nova forma de exercer o poder. Assistimos a um exercício do poder nas nossas Igrejas – cristãs ou não – muito equivocado quando posto em confronto com o poder vivido por Jesus. Mas não só nas nossas Igrejas…

Em toda a sociedade, o serviço desinteressado não desperta muito entusiasmo. Assistimos a uma crise política no Brasil e no mundo, incomparável. Penso que as leituras de hoje podem e devem ser pensadas em termos não apenas religiosos, mas também políticos. Nossos “chefes de estado” são, ou deveriam ser, nossos pastores. Aqueles que, eleitos por nós, devem nos proteger, guiar, cuidar, estabelecer relações diplomáticas com outros povos, de partilha e intercâmbio comercial, tendo como horizonte a paz, a justiça social, o Bem Viver. Não é isso que se vê… todos conhecemos bem a realidade do nosso mundo e vivemos na pele as consequências do uso do poder em benefício próprio, ou de grupos, que jamais pensaram ou pensam no bem do povo, dos cidadãos, do Brasil, ainda que o discurso seja ético, até “cristão”.

Hoje somos convidados a pensar sobre isso. Não é apenas o Evangelho que nos fala sobre poder e serviço: Hannah Arendt, filosofa judia, nos alerta sobre o mau uso do poder que nos leva aos “paroxismos da bestialidade”.
Nosso modelo de cuidado para com o rebanho é Jesus: cuidou e defendeu os seus a ponto de morrer por eles! Deixou as noventa e nove ovelhas e foi atrás da perdida, pois “uma vida importa”! A metáfora do pastor que guia o rebanho exprime admiravelmente dois aspectos, aparentemente contrários e que, em geral, separamos:

  1. da autoridade exercida sobre o povo: a força capaz de defender o seu “rebanho” contra os perigos das forças da natureza, do mal…
  2. mas é também delicado para com suas “ovelhas”, conhecendo sua condição, suas fraquezas, suas vulnerabilidades – como uma pandemia – e levando-as no colo! Sua autoridade é indiscutível, baseada na dedicação e no amor!

Pensemos nisso.

Que seja assim. Beijos no coração.

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