Tempos tenebrosos, profetas corajosos: carta dos bispos é Doutrina Social da Igreja em ação

por Élio Gasda*, no site Dom Total.

“As alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, especialmente os pobres e os que sofrem, são as alegrias e esperanças, tristezas e preocupações dos discípulos de Cristo” (Gaudium et spes, n. 1).

No cristianismo, a vida espiritual e a defesa da dignidade humana e da Justiça Social são inseparáveis. “A Doutrina Social brota do coração do Evangelho. Jesus é, em pessoa, a Doutrina Social de Deus”  – papa Francisco. A destinação aos humilhados e injustiçados é o aspecto mais acentuado do Evangelho (Lc 4,16-19). O discurso e a prática de Jesus partiam das angustias dos pobres e sofredores.

A Doutrina Social também brota do clamor dos pobres de seu tempo. “A Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e da formação ética, a sua contribuição para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis” (Deus Caritas est, n. 28). João Paulo II a definia como “um corpo doutrinal atualizado, que se articula à medida em que a Igreja, dispondo da plenitude da palavra de Deus revelada por Cristo Jesus e com assistência do Espírito Santo, vai lendo os acontecimentos, enquanto eles se desenrolam no decurso da história” (Sollicitudo rei socialis, n. 1). Para Bento XVI, “a doutrina social é a proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade” (Caritas in Veritate, n. 5).

Este esforço de propor um humanismo à altura do Evangelho é parte integrante do ministério confiado aos bispos por Cristo. “Através da Doutrina Social, a Igreja é capaz de despertar esperança em meio às situações mais difíceis, porque se não há esperança para os pobres, não haverá para ninguém, nem sequer para os chamados ricos” (Documento de Aparecida, n. 395).

Interpelados pela gravidade do momento e sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos de várias regiões do Brasil assinaram uma Carta ao Povo de Deus. Nela, expressam sua profunda comunhão com Papa Francisco e a CNBB, e tomam posição clara diante do governo Bolsonaro.

“Nosso único interesse é o Reino de Deus presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor”. São líderes religiosos de um país “que atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história”. O caos instalado no Brasil não admite indiferença diante das barbaridades impostas aos pobres e ao meio ambiente. “Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador”.

Os ricos não governam contra si mesmos. Além de incompetente, Bolsonaro é um intransigente defensor de uma “economia que mata” (Evangelii gaudium, n. 53). Aos pobres, a morte. Aos ricos, o lucro. Os 42 bilionários do Brasil aumentaram suas fortunas em 34 bilhões de dólares em plena pandemia (Oxfam, pesquisa Quem Paga a Conta?). O atual governo prioriza os interesses dos poderosos e menospreza os pobres, os mais atingidos pela pandemia.

“Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões entre as igrejas e seus líderes. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?”

Na Carta, os bispos propõem um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, democratas, movimentos sociais e todas as pessoas de boa vontade. Somente uma grande unidade nacional poderá restabelecer o

“respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, a ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com ‘terra, teto e trabalho’, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos”.

É hora de acordar do sono que nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes, violência e corrupção. A política genocida de Bolsonaro precisa ser interrompida. Se trata de alguém sem qualquer indício de humanidade e compaixão com os mais vulneráveis. Os pobres estão pagando a conta desta tragédia sem precedentes na recente história do país. Impossível humanizar um governo cuja essência é alimentar catástrofes humanitárias e ambientais. Sua essência demoníaca é infinita.

Papa Francisco alerta que “ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (Evangelii gaudium, n. 201). Através da Doutrina Social, a CNBB está recuperando seu potencial profético. Optar pelo silêncio é trair o Evangelho. O Cristianismo é sempre subversivo diante das estruturas de poder.

Profetas são os adversários mais temidos pelos poderosos. Profetas nunca recuam diante da injustiça. Que a sua palavra não perca a força do chicote brandido por Jesus ao expulsar os mercadores do Templo. Oxalá todo o povo profetizasse. É preciso reagir ao poder das trevas. “Rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12). A Carta dos bispos é Doutrina Social da Igreja em ação.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: ‘Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja’ (Paulinas, 2001); ‘Cristianismo e economia’ (Paulinas, 2016)

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