Análise de conjuntura Alargar o horizonte temporal e espacial da análise SEMINÁRIO PARA O INTERECLESIAL

“Se simplesmente não fazemos nada – ainda que seja não deixar de falar no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro. Tenho que dizê-lo” (Agenda latino-americana e mundial 2017, p. 33)

Em preparação ao 14º Intereclesial das CEBs do Brasil, se realiza nos dias 30 de setembro e 01 de outubro  de 2017 o SEMINARIO  DE ASSESSORES e ASSESSORAS, na cidade de Londrina Pr.

Para aprofundar o tema CEBs e os Desafios no Mundo Urbano, Pedro Ribeiro Oliveira apresentou uma reflexão com base na análise da conjuntura.  Pedro Ribeiro faz parte da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, é assessor Continental das CEBs e uma das vozes mais reconhecidas dentro da sociologia brasileira, especialmente quando falamos da dimensão sócio religiosa do ser humano. Autor de inúmeros estudos neste campo, sua capacidade de análise da realidade lhe faz ter uma postura respeitada no âmbito acadêmico.

Para Pedro Ribeiro “a ideia de que o ser humanos está mudando a terra aparece em 1945. Precisamos entender nosso tempo. Há uma mudança acelerada, até a pouco eram previsíveis as mudanças, agora não somos mais capazes de prever. O grau de aquecimento está acelerado, e cada vez pior. A crise climática não é fenômeno, o  Papa Francisco tem falado tanto e os bispos estão calados, parece que nos restringimos aos problemas de moral. Se não fizermos nada a catástrofe está garantida. Se falar, pelo menos poderemos diminuir seus efeitos. Extinguimos as outras espécies e a nós mesmos. Estamos vivendo o fim de um civilização ocidental moderna, estamos vivendo na economia um fenômeno que já se viveu outras vezes. Desde que o capitalismos existe já houve grandes crises financeiras, sempre que o capitalismo passa de uma grande potencia para outra. Hoje possivelmente vivemos a crise da passagem do capitalismo dos Estados Unidos para a China. Estamos vivendo um momento de guerra.

As instituições estão em crises e não o mercado. Ele continua sendo respeitado a propriedade privada.  Nossa produção daria 11 mil reais por mês para uma família de quatro pessoas. Este valor seria possível viver com dignidade. Se repartisse os bens todos teriam este valor. E nós cristão não sabemos anunciar esta boa noticia. O banco controla esta produção e financiam os organismos internacionais. Nossas empresas mantém estes organismos. Temos um mundo a serviço grandes grupos. Uma minoria goza de privilégios em detrimento de uma maioria.

Interesses e conflitos. Vivemos vários tipos de guerras, mas não nos chama a atenção. Já a guerra de 4ª geração destruir o inimigo sem usar armas, trata-se da guerra das informações, como aconteceu no Brasil, com o golpe.  Guerra de idéias. Nosso conhecimento do mundo está no supermercado. Perdemos o entendimento de como as coisas acontecem. “Combatentes derrotados de uma causa invencível, mas tem que reconhecer que fomos derrotados”.

Mais do que a renda,  é concentrada a propriedade. Os cinco por cento, dominam tudo e não se preocupam com o restante. 71 famílias mandam nos país.

“Se alguém sabe o que está acontecendo é porque é parte da quadrilha.” Hoje estamos sem estratégia, temos que retornar as bases e pensar nos trabalhos de base. No momento atual estamos perdendo os laços sociais, no mundo urbano a mobilidade reduz o encontro entre as pessoas.

A fé que fundamenta nossa Esperança é ingenuidade? Fica ai o desafio para as comunidades.”

Apresentamos o material utilizado na manhã do dia 30 de setembro.

Análise de conjuntura

Alargar o horizonte temporal e espacial da análise

Pedro A. Ribeiro de Oliveira Setembro. 2017

  1. 1. O antropoceno

Homo sapiens: 300.000 AC? (100.000 AC migração fora da África).

10.000 AC: agricultura e pecuária.

1500: expansão de europeus: destruição cultural, humana (escravização) e ambiental.

1750: revolução industrial (energia fóssil > CO2 na atmosfera passa de 280 p.p.m. a 400 p.p.m. hoje). Produção de materiais não naturais (concreto, plástico, alumínio) e energia nuclear.

1945: mudanças no Sistema Terra > era geológica Antropoceno.

Hoje: População humana: 7,4 bi. (bovinos: 1,5 bi., ovinos: 1,1 bi. e caprinos: 1 bi). 6ª grande extinção de espécies.

  1. Mudança climática e ambiental

Tempo da Terra não é o tempo humano (200 anos = 7 gerações).

Clima atual: 12.000 anos. Equilíbrio delicado: Biosfera = 20 km de espessura. Aumento de 1° C está causando:

  • Aumento da área de degelo do Ártico
  • Aumento da desertificação (solos e mar)
  • Aumento do nível dos oceanos (Bangladesh)
  • Aumentam eventos climáticos extremos
  • Diminuem as áreas de florestas > savanização

Risco: aumento em espiral (metano da tundra, degelo polar, florestas tropicais, oceanos.

  1. 2020: início da catástrofe

2020: ano crítico para o clima porque se emissões de CO2 não diminuírem será impossível evitar o aquecimento de 1,5° C.

EUA fora do Acordo de Paris: 19 x 1 no G-20. Governo brasileiro (extrativista) na contramão do Acordo.

Afeta os mais pobres, mas é oportunidade de renovação do capitalismo: economia verde. ( “doutrina do choque”- N. Klein)

A crise climática não é fenômeno metereológico.

Solução só pode vir por outra política econômica (mundial).

  1. Mudança climática e ambiental

Crescimento econômico ultrapassou os limites: Terra não cresce.

Modo de produção: extrair > transformar > consumir > descartar.

Tecnociência promete encontrar saída, mas devora as matérias-primas do Planeta, transformando-as em objeto de compra e venda, até seu esgotamento. “Se simplesmente não fazemos nada – ainda que seja não deixar de falar no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro. Tenho que dizê-lo” (Agenda latino-americana e mundial 2017, p. 33)

1-2. Crise da civiliza ção ocidental

Fim da civilização ocidental moderna?

(capitalista, colonialista, patriarcal, antropocêntrica e cristã).

Fim do ciclo de acumulação puxado pelos EUA = crise de longa duração > Financeirização do capital

De Gênova (s.15) para Amsterdã (s.16-17), depois Londres (s.18-19), atualmente Nova Iorque.

Séc. 21: Pequim e a economia verde?

Em todas as transições : “destruição criativa” = guerra.

(ARRIGHI, Giovanni: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo; Contraponto e UNESP, 1996).

  1. Concentração da riqueza

Mercado é a única instituição a escapar da crise das instituições. “Produzimos cerca de R$ 11 mil de bens e serviços por mês por família de quatro pessoas (Brasil exatamente na média mundial).

Mas o capital financeiro drena o produtivo. ” (Ladislau Dowbor) .147 grupos controlam 40% do sistema corporativo mundial, sendo 75% deles bancos. Financiam os organismos internacionais. Paraísos fiscais: US$20 tri (vindos do Brasil US$520 bi). 1% dos habitantes da Terra detêm riqueza igual a dos 99% restantes. (8 homens têm riqueza igual a de ½ da população mundial). E sistema só funciona se crescer. Problema: a Terra não cresce…

  1. 2. Crise de hegemonia

Fim da hegemonia dos EUA (se impõe militarmente, mas perdeu a autoridade conquistada em 1945) > possibilidade de um mundo multipolar (China, UE, Rússia e India).

Interesses em conflito:

  • guerras de baixa intensidade (bancadas por grandes potências). Trump intensifica (Katar, Coreia, Síria, Ucrania)
  • e de 4ª geração (destruir o inimigo sem usar as forças armadas). NSA e Pós-verdade (após atentados de 11/set.) > informação, Judiciário, acordos multilaterais (contra drogas, terrorismo, corrupção e para DD.HH, Democracia, ONGs). Controle das informações por internet (Snowden, Assange).
  1. 3. Guerra de ideias

Problema: só perceber a superfície do real (tudo vem do mercado).

Produção científica inacessível ao grande público, que consome a informação oferecida pela mídia (pós-verdade).

O imaginário/ideário ocidental moderno continua a dominar o pensamento. (Progresso, liberdade, indivíduo, religião etc).

Capitalismo/mercado vitorioso: Justiça social, Socialismo, Democracia, Igualdade, Humanismo… não mais ameaçam.

“A luta de classes existe e a minha classe está ganhando, mas não devia”. (W. Buffet). Em situação de vantagem, propõe a Paz.

“Combatentes derrotados de uma causa invencível”

  1. Brasil: o golpe de 2016

Interesse estratégico dos EUA: garantir suas fontes de matérias-primas e energia na ALeC e impedir domínio da China.

Golpe de 2016 se alinha com intervenção em Honduras, Paraguai, Argentina (eleição) e Venezuela (regime bolivariano).

Mobilizações de junho. 2013: resposta negativa do Governo às demandas  assumidas pelas forças golpistas. (Financiamento externo de ONGs tipo MBL).

Crise econômica artificialmente estimulada em 2015.

Método da guerra de 4ª geração. Cumplicidade de empresários que aceitam ser gerentes do capital externo.

  1. 1-Brasil – a classe dominante

208.000: 80 s. m. / mês = $75.000/mês

71.500:  160 s. m./ mês (patrimônio médio de R$17,7 milhões). (Dados de 2013 = 26.500.000 declarantes à RF).

  • Herdeira da casa-grande escravista: sem projeto de Nação.
  • Dona de corporações (anonimato) e dos meios de comunicação de massa.
  • Submissa às metrópoles neocoloniais.
  • Permeada no Judiciário.
  • Controle do Estado (por eleição e por corrupção).
  • Recuperou a hegemonia cultural e religiosa
  • Tranquilidade assegurada pela polícia e pela segurança privada (inclusive milícias).
  1. Classe dominante após o golpe

Golpe uniu diferentes setores: reformas neoliberais (recuperar a taxa de lucro), estancar Lava-jato e livrar-se de Lula e do PT.

Hoje: Incapacidade do grupo no poder de fazer o prometido.

Desmorona a coalizão e cada qual pega o que pode.

Quer escorar o sistema mas não encontra quem se imponha nacionalmente pelo respeito.

Desafio de 2018: manter as aparências mas não perder o controle do Estado. Em caso de risco, suprimem-se as eleições.

Alguém decifra o jogo de forças no campo do governo?

  1. 2-Brasil: as classes populares

Organizações populares acomodadas ao poder (lulismo) ou críticas ao governo não organizaram a retirada para a resistência.

Massas não perceberam a extensão do golpe.

Organizações populares fragilizadas só impediram até agora a reforma da previdência.

Assassinatos, abusos policiais, chacinas (cidade, campo eindígenas)  “terrorismo preventivo de Estado” (P. S. Pinheiro).

Plano popular de emergência, da Frente Brasil Popular: 76 propostas em 10 campos de ação. Só com consenso nacional ou insurreição popular (que não está no horizonte).

Prever longo tempo para criar laços sociais que resultem em força política popular

Para frente: trabalho de base

Conscientização (alfabetização, estudo bíblico)

  • Quem sou / meu lugar no mundo
  • Qual meu projeto de vida
  • Quem são possíveis parceiro/as / adversário/as

Organização

  • Reunir quem partilha mesmo projeto para ação conjunta

Formação na ação

  • Reflexão sobre a prática (ver, julgar e agir).

Dificuldade nova

  • Processo de trabalho dilui os laços sociais (uberização)
  • Mundo urbano / mobilidade reduzida isola as pessoas
  • Famílias e redes sociais não reúnem grupos diferentes.

Para frente: pensamento novo

Outro paradigma – Bem-Viver?

  • Brota da prática, mas não é espontâneo (exige teoria)
  • Recupera experiências históricas com leitura crítica
  • Inclui as diferenças (de gênero, étnicas, culturais, de geração), ao pensar as condições de existência
  • Inclui outras espécies além da humana como parceiras
  • Inclui a Terra como sujeito
  • Inclui a dimensão espiritual / mística. (Capacidade de ver o que está por detrás do perceptível e que energiza o real).

Para as comunidades cristãs

A que fundamenta nossa Esperança é ingenuidade?

Pedro Ribeiro Oliveira

Foto Luiz Vianna Pascom

 

 

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