O diálogo como fonte de reflexão

O diálogo como fonte de reflexão*

O diálogo entre o instituinte e o instituído, tem um papel importante, no processo de constituição e transformação social, porque ele constitui como atividade mobilizadora e fonte geradora da reflexão. O ato de refletir sobre a realidade impulsiona o sujeito a melhorar a qualidade da observação e discernimento que permite conceber como o mundo em suas diferentes dimensões se estrutura.

A compreensão de como a realidade sócio-político-cultural se estrutura historicamente, leva a pessoa a tomada de posição, que pode conduzir a vida de alienação ou a práxis transformadora. Para a formação da consciência crítica é fundamental a apropriação do conhecimento estruturado como substrato e instrumento para o entendimento e transformação da realidade do mundo da vida.

Antes de tudo, é importante lembrar que o modelo político que estrutura a nossa organização na sociedade, sobretudo na política partidária, tem produzido uma participação, meramente de um parceiro-fantasma, na arena das decisões políticas de condução da sociedade. Esse modelo pode ser traduzido como artifício da cartase, na arte do disfarce que anestesia e ceifa a mobilização popular. É a organização desigual para justificar o preposto da desigualdade social na arena da organização político-partidária.

Porém, é preciso que a classe trabalhadora, a massa popular entenda que para autotransformação social, faz-se necessário compreender que é o próprio saber popular, que se  constitui como  “motor básico da transformação, libertação” e emancipação humana. É nessa perspectiva, que precisamos encarar a formação permanente como pressuposto e instrumento fundamental para reflexão do próprio pensamento e da práxis humana no território das contradições da organização da sociedade civil e política.

A superação da cultura da dominação que coloniza a consciência da massa, passa pelo engajamento no movimento popular e pelo compromisso com a educação cidadã. Educação como prática da liberdade que coaduna com a vocação ontológica do ser humano de ser livre, a liberdade. A participação ativa no movimento popular configura como ato educativo de formação da subjetividade humana, articulado ao diálogo reflexivo, que oxigena o pensamento, o olhar, a organicidade e prática cotidiana da pessoa humana.

Foto: Luis Felipe Miguel

O movimento popular é o palco, a arena da e para a formação cultural. Porém, para que se transforme em conteúdo e instrumento de mobilização social, precisa alicerçar no diálogo como conteúdo, método e princípio para reconstrução do poder democrático popular.

A mobilização, a luta popular efetiva para a sua autodeterminação social, que impulsiona o sujeito a participação e engajamento político está entrelaçada a um projeto de civilidade. No caso, particularmente, da classe trabalhadora e movimentos populares o compromisso é com a educação para justiça social. Direitos sociais como fundamento, base e conteúdo para a educação permanente da população. Esse projeto de civilidade é movido pela ação cultural de libertação e emancipação humana.

Frente à realidade estruturada na lógica da desigualdade social, Freire enfatiza que“a mudança é uma constatação natural da cultura e da história”. Mas, é importante perceber e tomar consciência que “não haverá cultura, nem história sem inovação, sem criatividade, sem curiosidade, sem liberdade sendo exercida ou liberdade pela qual, sendo negada se luta”.

Hoje, a realidade objetiva aponta que existe mobilização, necessidade e desejo popular de tomar consciência de que para transformação da sociedade, mentes, percepções e corações, não dá mais para ficar alienado ao momento histórico, político e cultural que passa a realidade do País, sobretudo, o mundo de vida dos pobres sucumbido pela espoliação dos direitos fundamentais de sua existência.

A mudança faz parte necessária da experiência cultural. É a nossa presença nesse mundo estruturado na desigualdade social que temos de escolher e decidir um caminho político, que não se trata de adaptação a estrutura do estado mínimo neoliberal, mas pelo contrário, transformá-lo na perspectiva do estado democrático popular.

Neste sentido, estou de acordo com o pensamento de Danilo Streck ao declarar que “a participação é o caminho pedagógico para a constituição do sujeito democrático”. O ponto de convergência é o compromisso esperançoso na escuta do outro como condição para a educação humanizadora e que o mundo seja povoado de humanos justos e solidários.

Esse diálogo como fonte e caminho de reflexão, considera como pressuposto que democracia e participação constitui a base fundamental da educação política popular. Dessa forma, destaca a importância de revisitar as construções históricas sobre a questão da educação popular.

Penso que o ponto de partida e de chegada do diálogo converge para o conhecimento e  a sabedoria popular que produz a vida material e espiritual dos grupos sociais. É o conhecimento apropriado “que permite a sobrevivência do ser humano e sua relação de criação de vida, transformando a natureza com a prática cotidiana sensível”.

Enfim, é salutar também, entender que o “projeto civilizatório da sociedade e o projeto de vida das pessoas” são estruturados nas concepções que se entrecruzam no mundo da vida, como síntese do diverso e campo de possibilidades que alicerça e fundamenta a direção para a construção da emancipação humana. Por isso que a formação permanente é indispensável, enquanto contribuição para desvendar a complexidade que estrutura a organização imaginária da sociedade.

(*) Ademar de Lima Carvalho é professor de filosofia e teoria da educação na UFMT e assessor diocesano das CEBs no Regional Oeste 2.

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