CEBs e Ano do Laicato. Marilza José Lopes Schuina – presidente do CNLB

 A atuação dos cristãos leigos e leigas se dá no mundo e na Igreja. Na Igreja, muitos sãos os espaços que possibilitam aos leigos e leigas exercerem o “seu ser e seu agir, sua identidade e dignidade de sujeito eclesial” (CNBB 105, n. 136).

O Documento 105 nos recorda:

           As Comunidades Eclesiais de Base são uma forma de vivência comunitária da fé, da inserção e da sociedade, de exercício do profetismo e de compromisso com a transformação da realidade sob a luz do Evangelho. São presença da Igreja junto aos mais simples, aos descartados, aos excluídos. São instrumentos que permitem ao povo conhecer a Palavra, celebrar a fé e contribuem para o crescimento do Reino de Deus na sociedade. (…) Elas têm contribuído de forma clara para que os leigos e as leigas atuem como sujeito eclesial na vida da Igreja e para sua missão no mundo. Em muitas situações são elas o único espaço de partilha, acolhida mútua e valorização das pessoas. (146)

As CEBs priorizam o ministério leigo, em comunhão com os demais ministérios. É o lugar próprio do encontro, da festa, da partilha, da solidariedade, do serviço.

Nesse sentido, o Ano do Laicato, nos convida a refletir sobre os “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino”, “Sal da terra e luz do mundo”. Traz como objetivo geral:

“Como Igreja, povo de Deus, celebrar a presença e a organização dos cristãos leigos e leigas no Brasil;

Aprofundar a sua identidade, vocação, espiritualidade e missão;

E testemunhar Jesus Cristo e seu Reino na sociedade”.

A interface das CEBs com o tema do Ano do Laicato

Nas comunidades, a maioria dos cristãos são leigos e leigas, homens e mulheres “de Igreja no coração do mundo” e homens e mulheres “do mundo no coração da Igreja” (DP, 786). Esses homens e mulheres, plenamente incorporados à Igreja e ao seu mistério: “Estes fiéis foram incorporados a Cristo pelo Batismo, constituídos Povo de Deus, e a seu modo, feitos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (LG, n. 31).

Participar da função sacerdotal, nos faz sacerdotes como Cristo o foi, na dimensão do serviço, ou seja, “Jesus em sua vida ofereceu todo o seu viver, todo o seu agir à causa do Pai, à causa do Reino, a nós… todas as ações que os cristãos leigos realizam no mundo, sejam no ambiente familiar, profissional ou eclesial, são ações de consagração. É o consagrar o mundo a Deus. Agindo no mundo, na proposta do Reino, eles transformam o mundo na perspectiva do Reino. Servindo ao mundo, eles servem a Deus e, desta forma, adoram a Deus dentro do mundo em que se encontram (cf. LG n. 34)”. (Kuzma, 2016). Nesse mundo encontram-se as Comunidades Eclesiais de Base, a serviço do Reino.

Exercer a função profética no mundo atual, é ter uma voz de denúncia e de anúncio. Agir como Jesus denunciando as injustiças sociais e religiosas de seu tempo e anunciando a Boa Nova (Lc. 4, 18-19). “Ao falar desta vocação profética dos leigos, o Concílio diz que os Leigos exercem esta função quando, fortes na fé e na esperança, resgatam o momento presente e aspiram com paciência pela glória futura; não escondem a esperança, mas a manifestam livremente para transformar as estruturas sociais que os envolvem. Assim, unem, de maneira inseparável, vida e profissão de fé (cf. LG n. 35). É um ponto fundamental no aspecto da vocação dos leigos” (Kuzma, 2016), especialmente dos leigos e leigas das Comunidades Eclesiais de Base, que emergem da profecia.

“E isso nos leva à participação na função régia de Cristo, que corresponde à aceitação e a ação do Reino de Deus. Este Reino que foi inaugurado por Cristo durante a sua vida atinge também a nós e nos convida a continuar a sua ação; é o que nos torna e nos faz ser Igreja. Um Reino que começa neste mundo, mas que a sua realização vai além deste mundo, sem, contudo, ignorar ou abandonar este mundo. É o momento em que os leigos atuam diretamente na sociedade e tentam transformar a realidade onde se encontram. Eles anunciam o Reino e preparam o mundo para melhor recebê-lo. Dá-se aqui o testemunho naquilo que é autêntico e coerente na sua condição, já que espelham a Cristo no seu agir e na sua vida cotidiana (cf. LG n. 36)” (Kuzma, 2016).

Nas comunidades, a maioria dos cristãos leigos e leigas, são sujeitos eclesiais, “mediante sua dignidade de batizado, vivendo fielmente sua condição de filho de Deus na fé, aberto ao diálogo, à colaboração e à corresponsabilidade com os pastores. Como sujeito eclesial, assume seus direitos e deveres, sem cair no fechamento ou na indiferença, sem submissão servil nem contestação ideológica. Ser sujeito eclesial significa ser maduro na fé, testemunhar amor à Igreja, servir os irmãos e irmãs, permanecer no seguimento de Jesus, na escuta obediente à inspiração do Espírito Santo e ter coragem, criatividade e ousadia para dar testemunho de Cristo” (CNBB 105, n. 119).

Todo cristão leigo e leiga é chamado a ser “verdadeiro sujeito eclesial” (DAp, n. 497a), corresponsável pela evangelização, chamado a atuar na Igreja e no mundo, como “discípulo missionário, seguidor e testemunha de Jesus Cristo” (CNBB 105, n.132).

Nas comunidades, os cristãos leigos e leigas, são sujeitos na “Igreja em saída”:

          Igreja, comunidade missionária, que “entra na noite do povo, é capaz de fazer-se próxima e companheira, mãe de coração aberto, para curar feridas e aquecer o coração” (Francisco, in CNBB 105, n. 170);

          “Igreja pobre, com os pobres, para os pobres”, a serviço dos pobres nas periferias geográficas e existenciais, onde ninguém mais é capaz de chegar – mas o leigo, a leiga, mora lá;

          “Igreja do serviço, da escuta e do diálogo”, que trabalha para o bem comum;

           Igreja de uma espiritualidade encarnada, caracterizada pelo “seguimento de Jesus, pela vida no Espírito, pela comunhão fraterna e pela inserção no mundo” (CNBB 105, n. 184), onde os cristãos leigos e leigas vivem a comunhão e missão.

Nas comunidades, os cristãos leigos e leigas, são sujeitos numa ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino. Sim, esta relação entre “Igreja e mundo vem de uma grandeza maior que é o Reino de Deus… Anunciado e inaugurado por Jesus Cristo, o Reino de Deus diz respeito ao plano divino para toda a sua criação e tem sua última realização no próprio Deus, quando todos forem um com Ele (Cl 3,11). O mundo carrega, por sua vez, sinais do Reino, na medida em que avança por todos os meios na busca de condições de vida e de convivência humana que tornem mais viável a realização da liberdade e da fraternidade. O Reino de Deus é dom e missão. Como dom deve ser acolhido e como missão deve ser buscado, testemunhado e anunciado. Para essa missão a Igreja contribui em comunhão com todos os homens e mulheres que buscam construir uma sociedade justa e fraterna” (CNBB 105, n. 241), especialmente as Comunidades Eclesiais de Base.

Fortalecidos pela Eucaristia, “como membros da Igreja e verdadeiros sujeitos eclesiais, os cristãos leigos e leigas, a partir de sua conversão pessoal, tornam-se agentes transformadores da realidade” (CNBB 105, n. 243).

Vivenciando o Ano do Laicato

Uma das ações para o Ano do Laicato é a Semana Missionária “Igreja em saída”, a ser realizada no mês de julho em nossas dioceses, com círculos bíblicos nas ruas e nos locais de trabalho.

A dinâmica de círculos bíblicos ou grupos de reflexão é uma prática das Comunidades Eclesiais de Base, e, portanto, têm muito a contribuir para a realização da Semana Missionária. Semana esta, que pretende:

– “organizar visitas às famílias de cada rua ou às pessoas de determinado ambiente de trabalho, concluindo com o convite à participação de um Círculo Bíblico no início da noite;

em todos os dias da Semana Missionária lembrar da tríplice missão batismal (sacerdotal, profética e real), utilizar a Oração, o Hino, Ladainha e Objetivo Geral para Ano Nacional do Laicato;

– utilizar símbolos: Logomarca do Ano do Laicato, Imagem ou estandarte da Sagrada Família, Documento 105 da CNBB;

– em cada dia da semana refletir a partir da atuação dos Cristãos leigos e leigas nos areópagos modernos: família e mundo do trabalho, política e políticas públicas, comunicação e educação, o cuidado com a casa comum, superação das violências e cultura da paz (Doc. 105, nº 250 a 273)”.

Compromisso com o Ano do Laicato

Para que o Ano do Laicato não se transforme apenas em evento, a Comissão Especial para o Ano do Laicato da CNBB propõe a toda a Igreja dois legados, dois compromissos:

Para o âmbito da sociedade:

– “Promover mecanismos de participação popular para o fortalecimento do controle social e da gestão participativa:  Conselhos de Direitos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, Iniciativas Populares, Audiências Públicas, Referendos, Plebiscitos, entre outros;

– Mobilizar a sociedade brasileira para a realização da auditoria cidadã da dívida pública”.

Para o âmbito eclesial:

– “Criar programas de formação de ministérios leigos de coordenação e animação de comunidades, pastorais e movimentos;

– Fortalecer a articulação das redes de Comunidades (CNBB Doc. 100);

– Criar e/ou fortalecer os Conselhos Regionais e Diocesanos de Leigos” como preconiza o DOC. 105, 275f”.

CEBs e a organização do laicato

Um dos legados que se pretende com o Ano do Laicato é a criação e/ou fortalecimento dos Conselhos Regionais e Diocesanos de Leigos e Leigas.

O documento de Aparecida destaca:

          “Reconhecemos o valor e a eficácia dos conselhos paroquiais, conselhos diocesanos e nacionais de fiéis leigos, porque incentivam a comunhão e a participação na Igreja e sua presença no mundo” (DAp, n. 215).

A Assembleia da CNBB de 1999 aprovou o documento “Missão e Ministério dos Cristãos Leigos e Leigas”, conhecido como Documento 62:

          “é desejável que em sua missão os cristãos leigos, superando eventuais divisões e preconceitos, busquem valorizar suas diversas formas de organização, em especial os Conselhos de Leigos em todos os níveis” (CNBB 62, n. 191).

No Brasil, desde a década de 70, como fruto do Concílio Vaticano II, criou-se o Conselho Nacional de Leigos, conhecido hoje como o Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB. O processo de criação do Organismo foi precedido de 03 encontros nacionais de movimentos realizados em 1972, 1973 e 1974, culminando na criação em 1975 e aprovação do regimento em 1976. “O Conselho nasceu da decisão da CNBB e dos movimentos que participaram dos encontros e assembleias. Ao longo da sua história, o CNL foi se estruturando em Conselhos Regionais e Diocesanos e tem conseguido agregar movimentos e associações laicais e leigos de quase todas as regiões do Brasil (CNBB 107A, n. 161).

Por sua vocação, os cristãos leigos e leigas foram se organizando. “Sem essa organização em conselhos próprios, fundamentados no mistério da Igreja comunhão e missão e, consequentemente, na teologia dos ministérios, parece-nos impossível enfrentar, hoje, no mundo atual com toda a sua complexidade, o desafio da nova evangelização. Daí ser necessário que não só participem de conselhos mais diversificados e, em si mais significativos da comunhão eclesial, como os conselhos pastorais, paroquiais ou diocesanos, nos quais se acham também os sacerdotes e religiosos (cf. CfL, n.25; 27), mas também, de modo mais específico e com a autonomia que lhes cabe, é preciso que se organizem em conselhos especiais de leigos nos vários níveis diocesanos, regionais e nacional. Há problemas na evangelização do mundo hoje a que só os cristãos leigos articulados oficialmente podem dar resposta, também como Igreja inserida no mundo. Serão organizações análogas aos de outros grupos organizados em conferências, conselhos e comissões” (M. Carvalheira, in CNBB 107A, n. 163).

As Comunidades Eclesiais de Base podem colaborar efetivamente para que a organização do laicato seja uma realidade em todas as dioceses e regionais do Brasil, como lugar de aprofundamento da identidade, vocação, espiritualidade e missão dos leigos e leigas.

Não podem as CEBs omitirem-se dessa responsabilidade de reconhecimento do valor e da eficácia dos conselhos de leigos e leigas, conforme Aparecida, para que a comunhão e a participação sejam vivenciadas pelo próprio laicato nas suas diversas formas de expressão laical na Igreja e na sociedade.

“O CNLB, objetivando a articulação e a integração das diversas organizações do laicato, busca despertar nos leigos e leigas a consciência crítica e criativa, estimula sua participação nas instâncias internas da Igreja como sujeitos eclesiais. Além de ser um organismo de comunhão, o CNLB tem por objetivo criar e apoiar mecanismos de formação e capacitação que ajudem o laicato a descobrir sua identidade, vocação, espiritualidade e missão, com vistas à construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal do Reino de Deus” (CNBB 105, n. 213), presente e atuante na política, na economia, na cultura, nas políticas públicas, contribuindo para que sejam atendidas as necessidades dos pobres, marginalizados e excluídos da sociedade.

Marilza José Lopes Schuina – presidente do CNLB

 

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