Estátua do índio guarani Sepé Tiarajú –

Sete de fevereiro de 1756, margens da sanga da Bica, município de São Gabriel, RS: Sepé Tiarajú é morto combatendo o exército espanhol na Guerra Guaranítica. Três dias após, na Batalha de Caiboaté, 1,5 mil guerreiros e caciques guaranis padecem diante das armas luso-brasileiras e espanholas, colocando fim a uma das mais bem sucedidas experiências de vida comunitária cristã de todos os tempos, citada pelo iluminista francês Voltaire como “Triunfo da Humanidade”. Esta experiência em território latino-americano, entre 1609 e 1768, foi reconhecida pela UNESCO como “experiência única na humanidade”.

Os primeiros padres jesuítas entraram em território gaúcho em 3 de maio de 1626, fundando 18 reduções jesuíticas. O modelo missioneiro vinha se consolidando e observava um crescimento vertiginoso, fazendo com que a crescente produção fosse enviada para diversas partes da América e Europa. Montesquieu chamou a região das Missões de “primeiro estado industrial da América”. Mas o sucesso da iniciativa começou a enfrentar oposição e desafios. Seja pela suspeita de que os jesuítas estivessem tentando criar um império independente, como pela cobiça luso-brasileira interessada na criação de gado – a maior da América do Sul -, sem falar nos bandos de caçadores de escravos que aprisionavam os índios para submetê-los ao trabalho forçado na economia colonial exploradora, destruindo diversos povoados e provocando muitas mortes.

A Guerra Guaranítica

A Guerra Guaranítica foi uma decorrência da assinatura do Tratado de Madrid (1750) que alterava a demarcação de terras portuguesas e espanholas, exigindo a retirada da população guarani aldeada pelos missionários jesuítas espanhóis do território que ocupavam há 150 anos. Assim, os Sete  Povos seriam entregues aos portugueses em troca da Colônia de Sacramento. Nos Sete Povos das Missões viviam aproximadamente 30 mil guaranis. Somando-se aos do Paraguai e da Argentina, este número chegava a 80 mil indígenas catequizados, que habitavam aldeias planejadas, organizadas e conduzidas como verdadeiras cidades pelos jesuítas. Sepé Tiarajú chamou para si a responsabilidade da defesa do povo guarani da cobiça das cortes europeias. Em uma carta a ele atribuída enviada à Coroa Espanhola escreveu: “Esta terra tem dono e não é nem português nem espanhol, mas Guarani!”.

A liderança de Sepé Tiarajú

Sepé Tiarajú, ou “facho de luz” em guarani, foi batizado como José e criado pelos padres jesuítas. Aos poucos, foi adquirindo o conhecimento e a cultura dos jesuítas que se somaria ao espírito de liberdade guarani, o suficiente para transformá-lo em um dos maiores líderes da brilhante comunidade indígena missioneira. Suas qualidades e carisma, no entando, ganharam notoriedade somente com a Guerra Guaranítica.

O Irmão Marista Antônio Cechin  – coordenador da semana dedicada ao resgate da memória de Sepé Tiarajú e à conscientização da sociedade sobre a existência deste herói gaúcho e nacional – nos traça um perfil do líder guarani:

“Sepé Tiarajú, sendo Prefeito da cidade de São Miguel das Missões, eleito popularmente numa eleição democrática  em 31 de dezembro do ano de 1749 – no último do ano sempre havia eleições democráticas nos Sete Povos das Missões – e Sepé foi eleito Prefeito daquela cidade e dois ou três dias depois recebe a notícia de que os Sete Povos das Missões, das quais São Miguel era praticamente a capital, a mais caprichada, a última, estes Sete Povos,  pelo Tratado de Madrid que fez o Rei da Espanha com o Rei de Portugal – um novo tratado de limites -, estes Sete Povos teriam que passar para o lado da Espanha, do outro lado do Uruguai – estavam aqui no RS –  e os índios teriam que se bandear pro outro lado por ter sido considerada a Espanha – que noTratado de Tordesilhas e agora no novo Tratado fixava o Rio Grande do Sul como terra portuguesa, e os índios eram espanhóis, etc e tal, por causa dos missionários espanhois -, foram simplesmente com as roupas do corpo….deveriam ir, mas Sepé depois de ter sido eleito, com todos os meios possíveis ao alcance da mão, junto com os Padres, tentou anular o Tratado, não conseguiu, e no ano de 1756, quando ele não tendo outras maneiras, havia declarado a chamada Guerra Guaranítica, com este grito de que esta terra era uma terra sem males, o grande projeto sócio-político-econômico dos índios, então, no dia 7 de fevereiro de 1756 tombou na cidade atual de São Gabriel, na localidade chamada Sanga da Bica, e três dias depois, no Caiboaté, a 15 km de distância, dentro do mesmo município de São Gabriel, os 1.500 companheiros foram simplesmente chacinados pelos dois maiores exércitos do mundo de então unidos, os exércitos de Espanha e Portugal”.

Herói nacional e riograndense

O líder guarani Sepé Tiarajú deu a vida para defender as terras do Povo Nativo gaúcho. É reconhecido oficialmente como “herói guarani missioneiro-riograndense” pela Lei no 12.366 do Estado do Rio Grande do Sul e Herói da Pátria Brasileira pela Lei Federal 12.032/09. Por seus feitos, virou personagem lendário no Rio Grande do Sul e dos Povos nativos da América Latina. Sua memória ficou registrada na literatura por Basílio da Gama no poema ‘O Uruguai’ (1769) e por Érico Veríssimo no romance ‘O Tempo e o Vento’. Mas, por que motivos Sepé ainda é um desconhecido para muitos?

“Houve realmente um problema muito sério no ano de 1956 quando se completaram os 200 anos  do martírio de Sepé e dos 1.500 companheiros. Um militar, por sinal, da cidade de São Gabriel, pediu à população da cidade que pressionasse para levantar um monumento em homenagem à Sepé Tiaraju e de São Gabriel a luta passou à Porto Alegre, na imprensa, e os escritores e jornalistas então, começaram um debate para saber se Sepé era um heroi ou era um vilão. E o Governador Ildo Meneghetti, daquele tempo, então consultou o Instituto Histórico e Geográfio do Rio Grande do Sul, do qual era Presidente Moisés Velhinho, escritor, e  Secretário Otelo Rosa, dois escritores. Pois não é que esta entidade  consultada, pegou o monumento a Sepé no sentido de dizer que Sepé não foi herói brasileiro pois o Brasil não existia, não foi heroi espanhol porque lutou contra a Espanha, não foi heroi português pois lutou contra Portugal. E terminou assim: quem pariu o Sepé que o embale. Então, se foram os jesuítas que o criaram, eles que levantem o monumento, mas não a sociedade gaúcha. Nós só conseguimos a recuperação do Sepé no ano de 2006 quando se completaram os 250 anos da sua morte. Foi através de um frei franciscano que se elegeu Deputado Estadual, Frei Sérgio, com esta missão de nós levarmos Sepé à glória, então conseguiu-se primeiro uma lei no Rio grande do Sul, declarando Sepé heroi guarani, missioneiro e riograndense. Então o Deputado Federal Marco Maia, em Brasília, com uma outra lei nacional, elevou Sepé à heroi brasileiro. Eu fui pessoalmente assistir a entrada de Sepé Tiarajú no panteão histórico do Brasil, aonde ele tem uma página em bronze como heroi brasileiro, ao lado de Tiradentes, e outros herois”.

Beatificação como mártir da justiça

A Semana dedicada a Sepé Tiarajú – realizada desde o dia 1º de fevereiro até sábado, 7, dia da morte do herói guarani – pretende ser uma arrancada rumo a uma possível introdução da causa de Beatificação e Canonização dos heróis riograndenses, guaranis, missioneiros e brasileiros Sepé Tiarajú e seus 1,5 mil companheiros mártires pela justiça, junto com os três padres jesuítas missioneiros dos Sete Povos, Roque, Afonso e João:

“O Simões Lopes Neto diz  ele ‘tomou no Céu posição’. Porque, pelo que dizem os historiadores, o Sepé tinha uma cicatriz no rosto causada pela escarlatina, uma peste que bateu, então à noite ela adquiria um colorido meio luminoso e isto põe a base daquilo que se chama a lenda ….. A gente está aí tentando ver se nós introduzimos com a causa de beatificação primeiro,  porque quando se trata de um mártir, as causas de beatificação e canonização é só provar que ele morreu por causa da luta pela justiça ou pela sua fé explícita. São motivos que são os valores mais profundos da Bíblia e do cristianismo. Então, aí está o que eu pensei já trabalhando em Roma e que depois iniciei aqui, quando se iniciaram a catequese libertadora e a Teologia da Libertação com as suas Comunidades Eclesiais de Base, que são a nova base da nova Igreja, modelo ameríndio, do qual modelo, o Papa Francisco atual é o protótipo. Ele com uma inteira forma diferente de reformar o próprio papado em primeiro lugar, e de mandar a todos os religiosos, a todos os cristãos às periferias a fim de se engajarem nas lutas com os mais pobres, eu acho que nós temos uma chance única na história de realmente, ele como jesuíta, o nosso Papa inclusive que é desta  estirpe dos jesuítas que missionaram o Rio Grande do Sul, eu acho que vamos ter a ocasião oportuna de poder canonizar o Sepé”.

Os guaranis hoje

Os guaranis entraram no território gaúcho há 2,5 mil anos. Viveram o apogeu dos Sete Povos da Missões e hoje esmolam à beira das estradas, privados de sua dignidade:

“Os índios hoje, principalmente o povo guarani, estão por assim dizer na etapa final do Brasil, que é a última chance que eles tem de ver restituídas, pelo menos de um pedaço das terras que tinham. Então, tem um significado todo especial ainda hoje este grito, que é  o povo que mais sofre pelo Brasil nestes 500 anos, são os povos indígenas, e entre eles o povo guarani, do qual nós herdamos no Rio Grande do Sul o chimarrão, e todo mundo diz que isto é o símbolo do gaúcho. Nunca dizem que o chimarrão foi inventado por este povo guarani, que está à beira das estradas no Rio Grande do Sul, e não tem realmente uma terra, uma espécie de antiga reserva que seja deles. Esmolando somente, mesmo em Porto Alegre, em torno de Porto Alegre tem grupinhos, na beira das estradas, e bem no centro mães guaranis com crianças no colo, sentadas, pedindo esmolas e a nosso ver, os brasileiros de hoje, principalmente quem vem da Europa, me dá a impressão que tem  um coração de pedra. E Jesus diz que ele veio mudar no seu projeto de Reino de Deus os seus corações de pedra em corações de carne. Então, a questão desta terra tem dono, a terra guarani, a terra sem males, sobre a qual o Pedro Casaldáliga fez até a Missa da Terra Sem Males, baseada em Sepé Tiarajú, e agora veja, nós vamos inaugurar em São Sepé, a trilha junto à Sanga da Bica e nesta trilha nós vamos ter Sete Estações para recordar os Sete Povos das Missões e aí vai ser musicada a Via Sacra missioneira com Sete Estações que o falecido Bispo Dom Tomás Balduíno, que era Presidente do CIMI, (Conselho Indigenista Missionário), ele compôs esta Via Sacra missioneira a partir da vida do Sepé, fazendo uma parada em cada estação, que são então os Sete Povos das Missões: São Miguel, São Borja, São Luiz Gonzaga e assim por diante…”.

Semana dedicada ao resgate da memória de Sepé

Desde 2006, quando recordou-se os 250 anos da morte de Sepé Tiarajú, organiza-se uma Semana voltada à conscientização da sociedade sobre este personagem e de seu legado, o que envolve diversas iniciativas em várias cidades gaúchas.

Irmão Antônio Cechin nasceu em Santa Maria/RS, é Irmão Marista, militante de movimentos sociais, fundador da CPT/RS, Pastoral da ecologia e da ONG Caminho das Águas. Também coordenador da semana dedicada ao resgate da memória e legado de Sepé Tiarajú

(JE)

P.S.O fundador da CPT-RS (Comissão Pastoral da Terra do Rio Grande do Sul), Antônio Cechin, morreu aos 89 anos, no dia 16 de novembro de 2016. Nascido em Santa Maria/RS, no dia no dia 17 de junho de 1927, ele foi Irmão Marista, militante dos movimentos sociais. Também foi fundador da Pastoral da Ecologia, da ONG Caminho das Águas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), criador da Romaria da Terra e da Romaria das Águas, idealizador da missa em honra a Sepé Tiaraju. Ele estava internado no Hospital São Lucas da PUCRS, onde se recuperava de uma fratura na bacia.

Fonte http: //br.radiovaticana.va